bebum
“nem se lembra do dinheiro que tem que levar, do seu pai bem louco, gritando dentro do bar. nem se lembra de ontem, de hoje e o futuro. ele apenas sonha através do muro.” – racionais mcs, fim de semana no parque.
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algumas pessoas se mantém vivas com objetivos bonitos. tratam de cuidar de possíveis infecções e de prevenir o colesterol alto com o desejo de ver um filho se formar na faculdade. outras se previnem de acidentes porque cuidam de alguém que não se preveniu tanto assim. algumas têm sonhos, utopias de um destino. eu tenho o que eu chamo de vingança e/ou alívio.
eu me mantenho viva para, em parceria com o destino, me vingar de quem não queria que os meus sonhos vingassem. me mantenho viva: trato de prevenir tropeções nos tapetes, escorregões no box molhado do chuveiro e rezo ao meu anjo da guarda todos os dias para que motoristas bêbados não cheguem ao meu encontro. seria trágico um fim em que eu morresse na mão de outro viciado.
eu me mantenho viva, com um pouco de sorte e com as minhas dezenas de neuroses hipocondríacas catalogadas, para o dia que finalmente chegue a oportunidade de celebrar a vida com alívio, carregando a alça do caixão do meu pai.
já fiz muitos planos para esse dia. sonhei com ele de muitas formas. quando o relógio batia às 23h30 e ele ainda não estava em casa, eu rezava ao contrário: que motoristas – ainda mais bêbados que ele – viessem em seu encontro, que tropeções fatais acontecessem, que eu desse sorte dele bater a nuca no meio fio, que ele entrasse em uma briga de faca, que uma bala perdida o achasse e a manchete do jornal trouxesse meu presente no dia seguinte.
a reza nunca adiantava e eu me perguntava: por que, meu deus? esse é o tipo de pedido que deve ser endereçado pro diabo? não há diabo que o carregue? não há cristo que faça? não há santo que interceda? não há graça alcançada nessa desgraça?
enquanto ele está vivo, mantém minha vingança viva também.
não tenho planos pro velório, mas quero estar presente no enterro e ter a certeza de que o caixão está bem pregado, que dentro dele não há nenhuma picareta escondida entre os panos, nada que possa ajudá-lo na missão da abertura da tampa embaixo da terra. preciso me certificar de que não haja chances de ressurreição. eu quero ter a certeza que já basta viver entre os meus demônios e que nenhum outro possa renascer da cova. que fique guardado ali, por toda a eternidade que vem depois, entre os ossos de todos os crentes que nunca acreditaram em mim. nesse dia, eu quero colocar caetano veloso pra cantar bem alto “im alive”, enquanto me arrumo nem muito emperiquitada, mas também não tão desleixada como uma filha que perde o pai que ama.
tenho fé, eu vou estar viva nesse dia. eu preciso viver pra ver, pra estourar champanhe, para rir como riem as pessoas que sobrevivem. para não ter que me lembrar ou arrumar alguma desculpa para as perguntas que não têm resposta. vou dizer dizer que morreu, uma pena, acredita? viveu mais do que mereceu e do que merecíamos todas nós.
quero saúde e músculos que me permitam carregar esse caixão com as mãos. se for necessário, com as costas, usando os bíceps e trapézio que se acostumaram ao enrijecimento quando eu ouvia o barulho do portão, as chaves caindo no chão, as marteladas para arrebentar um novo cadeado, os xingamentos de inútil, idiota, porca.
muito cedo aprendi que bêbados têm dificuldade com coisas pequenas: perdem e derrubam pertences, chutam cachorros e xingam crianças.
o som da tampa pregada há de ser o som da minha liberdade; por todos os anos que vivi com o corpo tensionado, com a vergonha queimando nas bochechas, sentindo a batedeira explodindo meu peito, o suco gástrico subindo e descendo na minha garganta. tudo me matava de horror aos poucos: os sons dos motores estacionando em frente de casa, os passos cada vez mais próximos da porta. eu passei a vigiar tudo, tentando antever quando seria o próximo golpe. mesmo quando havia silêncio, eu sentia angústia porque me parecia que esse silêncio precedia a próxima violência. e eu sempre tava certa. silêncios e barulhos sempre precediam a violência. meu corpo só tentava se esquivar, adivinhando quando.
fui sobrevivendo com comida, escola estadual e roupas limpas, lavadas pela vó e pela mãe. delas, eu gostaria que fossem os anos a mais que meu pai dura em pé na terra, que fossem de minha avó e de minha mãe todos esses anos. eu seria capaz de arrancá-los dele e entregá-los para elas.
antes de vê-lo em uma cama de hospital, talvez eu ainda não fosse capaz. rezava a deus que o levasse, desejava esse dia, mas aceitava o destino, como quem não tem muito o que fazer.
mas aquele perfex no peito dele mudou tudo. a UTI do pronto-atendimento público; as enfermeiras servindo arroz branco em potes de plástico, um desses potes jogados no peito dele sem camisa. o corpo dele sem camisa, deitado na maca da UTI pública. um perfex servindo de babador. o corpo dele deitado na maca com paralisia do lado direito. um perfex azul. ao lado do corpo dele, o corpo de alguém baleado. uma velha resmungando a morte e uma mãe chorando o filho que caiu de moto. jovens saindo vivos de acidentes graves, com gaiolas prateadas nas pernas. uma sucessão de gente de meia idade, todos meio vivos e meio mortos, sobrevivendo mais algum tempo apesar do avc, da pressão alta, do colesterol, da alimentação ultraprocessada, do sedentarismo e, no caso dele, do consumo exagerado de álcool.
eu não consigo mais me lembrar de como ele era. aos poucos, fui esquecendo de como ele era quando estava sóbrio. aos poucos, o álcool da noite já não ia mais embora de manhã. o estado sóbrio virou uma zona cinzenta em que ele não estava nem completamente bêbado e nem completamente bom. aos poucos, o horário do almoço, que pressupunha a primeira dose de cachaça que, então, abriria a porta para as dezenas subsequentes, começou a se adiantar: de meio dia, para às 11h30 e, depois, para às 11h, chegando às 10h30. uma embriaguez emendava na outra, assim como os dias.
como se quem estivesse embriagada fosse eu, a minha memória foi soterrando tudo e eu não me lembro nem de como ele era quando estava bêbado. como pode? meus traumas… não sobrou quase nada. minha memória – querendo me salvar, querendo me fazer seguir, querendo me ajudar a sobreviver – borrou quase tudo, quase todas as lembranças. só as mais violentas sobraram, como nesgas de uma vida cotidiana.
o caixão na minha cabeça já está pregado. eu só espero o dia que a morte seja, de fato, consumada. aí vou ter um atestado carimbado, que justifique o apagar da minha memória.
dizem que só morre quem a gente esquece que já viveu.
“pai, vim te contar coisas que não aprendi contigo, tipo aprender a desenrolar, a dançar. nunca fui bom em lutar, mas tive que aprender a bater, vendo minha mãe apanhar de um comédia que nunca mais pisa nessa porra, e se cruzar meu caminho, eu destruo porra toda.
não sei dançar, não sei orar, mas sei cantar quase todas do racionais e isso pra mim, na rua, é quase a mesma coisa.” – 2zdinizz, coisas que não aprendi contigo.




Me emocionei não só por me identificar com o passado, mas por querer também o mesmo futuro.
Vingança, tão ultrajada e tão necessária. Pra quem tb aprendeu a conviver com o corpo enrijecido pelo pavor do que sabemos estar por vir, suas palavras dando nomes as coisas é um quentinho no peito.